Esperando_o_Sucesso

o «ACESSO DOS MAIS DE 23 ANOS AO ENSINO SUPERIOR» e o Desemprego dos Licenciados

«Esperando o Sucesso», 1882, óleo sobre tela 131,5 x 83,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis Porto, Portugal

O recente relatório da OCDE sobre o desemprego em 2009 veio revelar em Portugal uma nova realidade: a do desemprego nas classes jovens e instruídas.

É claro que a nossa comunicação social onde ainda existem directores de jornais que nem uma licenciatura têm, logo colocou em manchete uma não provada relação entre licenciatura e desemprego. Pura estupidez e preconceito de ignorantes.
O que estamos em presença é exactamente na nova realidade na sociedade portuguesa: a da massificação da instrução ate níveis de ensino superior.
No meu país ideal todos os desempregados serão licenciados, pois isso significaria que o lamentável atraso salazarista, o miserável gueto dos analfabetos, que a miséria e a incompetência dos políticos condenaram os portugueses, estava finalmente ultrapassado.
Infelizmente vivemos num país onde ainda há 10%, ou seja um milhão de analfabetos…
E quanto a estes, provavelmente envelhecidos e rurais, já pouco ou nada haverá a fazer.
O que temos que fazer agora é exactamente pelos que ainda podem beneficiar da instrução. E aqui os três passos dados nos últimos quatro anos são decisivos: a aprovação do processo de Bolonha, o acesso ao ensino superior dos mais de 23 anos e, finalmente, o ensino obrigatório até ao 12º ano, recentemente aprovado.
Para lá de toda a discussão está em curso uma revolução cultural na instrução em Portugal que tem uma cara – Mariano Gago – e que dentro de duas legislaturas tornará o primeiro ciclo universitário obrigatório, trazendo é certo, novas realidades sociais económicas e ate politicas para dentro das universidades e obrigando estas instituições a mudarem e a reflectirem, enquanto espelho das próprias sociedades e já não reserva de privilégio, sobre os seus métodos e currículos.

A verdadeira causa

Aprendemos da ciência política que o Estado é mais uma agente, dotado de vontade própria que actua na comunidade, orientado aos interesses das elites que o controlam, servindo o bem comum na medida, e só essa, em que esse serviço lhe serve para se manter no poder.
E portanto não podemos olhar para esta «revolução civilizacional» na Europa – a da massificação dos primeiro graus do ensino superior – como uma afirmação de valores superiores e generosos de uma comunidade de idealistas, mas haverá que procurar o «sentido ultimo das coisas» e perceber quem é afinal aquele «pintor maquiavélico» do magnifico quadro «Esperando o sucesso» do calipolense Henrique Posão (Museu Soares dos Reis, Porto).
As «Conferencias de Verão» da Universidade Lusófona do Porto, constituíram para mim essa oportunidade para pensar exactamente «o sentido último», a razão destas reformas.
E muito pragmaticamente surge logo, no caso da extensão do ensino secundário obrigatório ao 12º ano, conjugado com os apoios das «Novas Oportunidades», a necessidade de formar e de ocupar o desemprego jovem, evitando marginalidade e exclusão social.
Mas continuamos sem resposta para «os mais de 23 anos» e para o sentido de inclusão que esses exames hoje têm no sistema de ensino superior, ao contrário dos «exames ad hoc» antigos, que tinham como primeiro objectivo excluir os candidatos que não demonstrassem um certo número de competências.
E a resposta é simples: o mercado.
Não podemos ver estas reformas do ensino superior isoladas de uma geração que destruiu valores e que agora ao reconstrui-los encerra um ciclo de vida único na história da humanidade. São os «soixante-huitard» franceses ou os «baby boomers» americanos.
È uma geração que numa geração conseguiu o que nunca nenhuma tinha feito depois da épica derrota de Tróia quando Eneias morreu: conseguiram dar cabo das poupanças dos seus pais e desfazer os rendimentos futuros dos seus filhos.
É uma geração notável nascida depois da guerra, no momento da afirmação da sociedade industrial e portanto rejeitando-a bem como às suas instituições. Contra aquela sociedade de horários e da ética do trabalho operário, proclamou o direito à preguiça. Contra a família esgotada e castradora proclamou o amor livre, exigiu o divórcio e ate mesmo o casamento do mesmo sexo.
Em nome da «libertação da mulher», do feminismo e do «direito ao corpo», enterrou o «direito à vida» e alargou a interrupção voluntária da gravidez (aborto). «Pela paz» destruiu o Exército e o «contingente militar obrigatório», separado definitivamente a «nação» da «pátria». «Pela liberdade» tornou universal modelo democrático de organização do poder politico e destrui a maior instituição global do pós guerra, construída pelos seus país: a guerra frio e o equilíbrio bipolar mundial, que garantiu mais de 50 anos de paz na Europa.
Foi a geração da Europa e do Estado Social, no sentido em que isso lhes garantiu direitos sociais e pensões que só eles tiveram e só eles terão e continuarão a ter por via dos «direitos adquiridos». Onde os seus pais foram «empreendedores», eles foram «estatizadores», onde havia «sociedade civil» eles instituíram a «assistência ou segurança social», garantindo assim que não haveria para eles mais preocupação com o desemprego e a velhice.
Economicamente, passaram da «sociedade industrial» do tempo da guerra, para a «sociedade do conhecimento», da tecnologia, do design, do processo técnico e criativo relacionado à configuração, concepção, elaboração e especificação dos artefactos.
Enfrentaram grandes revoluções civilizacionais: a revolução digital do inicio dos anos oitenta, a revolução das telecomunicações e finalmente a revolução financeira da segunda metade de oitenta do século passado, que depois da queda do muro de Berlim (a ruína da instituição bipolar) viria a abrir a porta à globalização. Fizeram em meados da década de noventa (1996) a revolução da internet e criaram a sociedade em rede e finalmente com a liberalização do comércio mundial e a deslocalização fundaram a partir de 1998 a globalização que vai permitir que mais de 600 milhões de chineses, 300 milhões de indianos, 80 milhões de russos e 60 milhões de brasileiros tenham ascendido à classe média, passando a comprar casas, carros e frigoríficos a prestações e a mandar os seus filhos para os colégios e universidades.

O Ocidente rico

E nós, no Ocidente rico, assistimos na ultima década do século passado e nesta primeira década do século XXI, ao desmantelamento a sociedade industrial, com a deslocação das indústria para a China e para a Índia e assistiremos agora ao fim da sociedade da abundância e do conhecimento, pois hoje só a Índia consegue formar mais engenheiros, advogados ou gestores num ano que a Europa e os EUA em cinco.
E contudo a nossa sociedade ganhará, não apenas por que tem armas e um sistema de defesa eficaz (caso dos EUA) – embora seja importante estarmos atentos aos movimentos de rearmamento de medias potencias como o Brasil ou o Irão – mas sobretudo porque depois desta sociedade «do lado esquerdo do cérebro», organizada, trabalhadora, metódica, rotineira e académica, entraremos na sociedade «do lado direito do cérebro» para usar a definição de Daniel Pink, onde já não é o design que interesse, mas a criatividade, a realização do homem, onde já não interessa mais objectos, mais coisas, como na sociedade da abundância e do conhecimento, mas a realização integral do homem, e nesse sentido a boa historia à volta do produto manufacturado ou do lugar turístico faz de nós vencedores do «round» seguinte.
Só que há um pequeno por menor: nos próximos 15 anos em cada segundo, seis «baby boomers» atingirão a reforma. Dentro de 12 anos cerca de 40% da população portuguesa terá mais de 65 anos, estará reformada e sem ocupação. E estamos a falar de mais de 50% dos eleitores ou seja de quem vai decidir as eleições nos próximos trinta anos em Portugal.
Ora sendo o grupo de consumidores mais elevado do país, ainda por cima com reformas e um sistema sustentados pelos nossos impostos, portanto sem preocupação de sobrevivência, esta geração vaio continuar a ser o mais vasto mercado para a economia e para os politicas, o que significa que vai continuar a determinar o futuro.

Os velhos conservam e restauram os valores tradicionais

Só que os velhos não fazem revoluções. Quando muito conservam o que está e normalmente querem o regresso ao passado. E é exactamente isso que estamos a ver, na atitude dos fundadores da democracia em Portugal…
Os mesmos que destruíram a família com o divórcio e o aborto, que destruíram o Exercito como fim do «serviço militar obrigatório», que destruíram a autoridade do Estado com a limitação dos poderes, as ONGs e os direitos sociais, que destruíram a Universidade com os as novas formas de comunicação e a massificação do ensino, que destruíram o equilíbrio global com a queda do muro de Berlim, essa geração gigantesca e única na história da humanidade, encerra agora o seu ciclo ainda com uma expectativa de vida de mais 20 ou 30 anos: restaurando os valores, restaurando a universidade.
Não chega a ser irónico, pois é assim mesmo: o fim de um ciclo. Um ciclo que respeitaremos todos: há que reocupar 40 % da população, há que requalificar todos os outros que nesta sociedade do «lado direito do cérebro» terão muito tempo livre.
E com isso estamos a responder às necessidades do maior mercado, mostrando a oportunidade da «lei da oferta e da procura» nos mercado competitivos e na democracia, mas também estamos a cumprir este «testamento restauracionista», o «regresso aos valores», que os «baby boomers» e os «soixant-huitrad» nos deixaram como herança.
É isso que significa a «prova de acesso dos mais de 23 anos ao ensino superior». É isso que significa o «Processo de Bolonha». Cultura/criatividade/arte e cultura de mercado. Mercado interno, mas também o valor acrescentado da instrução e da criatividade. O fim dos advogados, dos economistas e dos contabilistas (que são e continuarão a ser necessários mas que são mais baratos na Índia e na China) nas organizações europeias e globais e o triunfo das artes. 
É essa a última herança que os nossos pais «soixante-huitard» nos deixam, na Europa e nos EUA.
Que bom!
Afinal, não é este o único segredo do sucesso do Ocidente?

Armando Rui Teixeira Santos
Professor Associado da EAL/ULHT


 

 

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